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Rastreabilidade e gestão: o que falta para a soja sustentável deixar de ser exceção no mercado global?

Postado por Redação Agro Summit em 29/10/2026 em Notícias

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Com apenas 1,9% da produção mundial certificada, o setor busca integrar softwares de rastreabilidade, dados geoespaciais e incentivos financeiros para atender às exigências globais sem penalizar o produtor

 

 

 

A produção global de soja alcançou patamares históricos de eficiência operacional e produtividade nas últimas décadas, impulsionada pelo avanço da agricultura de precisão, do monitoramento digital e de novos sistemas de gestão agrícola. No entanto, do ponto de vista de governança e sustentabilidade da cadeia de suprimentos, a adoção de padrões verificados ainda enfrenta gargalos de escala.

A soja certificada por padrões internacionais, como o da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), representa atualmente cerca de 1,9% da produção mundial. Embora o volume de grãos certificados tenha alcançado o recorde de 11,2 milhões de toneladas no último ciclo um crescimento de 80% em relação ao período anterior, o desafio do setor reside em transformar iniciativas isoladas em uma mudança estrutural na gestão de riscos e na comercialização.

Para gestores do agronegócio, cooperativas e agroindústrias, a adequação socioambiental deixou de ser uma pauta puramente reputacional e passou a integrar a gestão financeira e comercial do negócio.

 

Rastreabilidade digital e novas exigências regulatórias

As transformações no comércio internacional, marcadas por regulamentações como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), pressionam as empresas da cadeia a reforçarem seus mecanismos de verificação. A comprovação de origem exige a consolidação de infraestruturas digitais de monitoramento.

Ferramentas tecnológicas como sensoriamento remoto via imagens de satélite, bases geoespaciais e plataformas integradas de dados, desempenham papel central na identificação de riscos socioambientais e no acompanhamento de mudanças no uso da terra em tempo real. No entanto, a eficiência da tecnologia depende diretamente de processos consolidados de auditoria.

Segundo Marina Muscolo, diretora-executiva da RTRS:

"Cumprir exigências regulatórias não significa, necessariamente, construir uma cadeia plenamente sustentável. Precisamos garantir que essas ferramentas estejam associadas a critérios confiáveis, processos de verificação e decisões capazes de produzir resultados ambientais, sociais e econômicos concretos."

 

O gargalo da distribuição de custos na cadeia

A implementação de padrões de conformidade exige aportes financeiros contínuos na gestão das propriedades rurais, envolvendo auditorias externas, adequação técnica, documentação e uso de software de gestão agrícola. Um dos principais desafios operacionais é a assimetria na distribuição desses custos entre os diferentes elos.

Para que a certificação ganhe escala global, o mercado comprador precisa criar incentivos econômicos que compensem o investimento na ponta produtiva.

"A adoção de padrões de certificação exige investimentos em adequações, documentação, auditorias e gestão das propriedades. Esses esforços precisam gerar benefícios concretos para os produtores, enquanto compradores e indústrias precisam remunerar estes esforços e auxiliar em mecanismos de previsibilidade para todos os esforços futuros de manter a certificação através dos produtores", afirma Marina Muscolo.

 

A inclusão de pequenos produtores e o modelo de gestão em grupo

No cenário global, a inclusão de pequenos e médios agricultores representa outro ponto crítico na gestão de suprimentos. Atualmente, mais de 90% dos produtores certificados pelo Padrão RTRS enquadram-se na agricultura familiar ou de pequena escala (somando mais de 84 mil agricultores, com forte presença na Índia e em Uganda).

Para contornar as barreiras econômicas e administrativas da certificação individual, modelos operacionais como a certificação em grupo têm se mostrado eficientes para diluir custos fixos de auditoria e facilitar a adoção de tecnologias de gestão da informação.

"Sustentabilidade e competitividade não devem ser tratadas como objetivos opostos. A conservação dos recursos naturais está diretamente relacionada à continuidade da produção agrícola e à resiliência dos negócios", ressalta a diretora da RTRS.

A consolidação de cadeias sustentáveis exige que produtores, tradings, instituições financeiras e o varejo alinhem estratégias para que a produção responsável deixe de ser um nicho e se torne uma prática padrão, viável e plenamente integrada aos sistemas de gestão do agronegócio.

Postado por Redação Agro Summit em 29/10/2026 em Notícias