Agricultura regenerativa precisa sair do discurso e entrar nos indicadores
Postado por Sheilla Albuquerque - CEO da Vitalforce em 29/10/2026 em NotíciasPor Sheilla Albuquerque, CEO da Vitalforce: entender o que está sendo regenerado requer análise, diagnósticos de solo e indicadores práticos que façam sentido para quem produz

A agricultura regenerativa ganhou um espaço que dificilmente perderá. Está nas discussões sobre produtividade, clima, financiamento, cadeias de fornecimento e futuro da agricultura. O desafio agora é mostrar, na prática, o que está sendo regenerado e quais resultados essa mudança produz dentro da fazenda.
Tenho acompanhado de perto essa discussão e acredito que um dos desafios seja definir com clareza o que, de fato, caracteriza uma agricultura regenerativa. Práticas como plantio direto, rotação de culturas, cobertura do solo, integração de sistemas, aplicação de bioinsumos e conservação da água podem contribuir para esse processo, mas a adoção destas ferramentas, por si só, não comprova que uma área esteja se regenerando
A pergunta que precisamos fazer é mais objetiva: o sistema está melhor do que estava há alguns anos? Responder exige medir e, na agricultura, isso começa pelo diagnóstico.
Antes de discutir qual tecnologia adotar, precisamos entender qual problema estamos tentando resolver. Parece básico, mas um bom diagnóstico muda a qualidade da decisão e permite direcionar melhor o manejo e os investimentos. Quando começamos pela tecnologia e só depois procuramos o problema que ela poderia resolver, corremos o risco de investir sem atacar a principal limitação da área.
É dessa forma que vejo a agricultura regenerativa. Ela não é um conjunto fechado de práticas, mas uma estratégia de evolução do sistema produtivo a partir das necessidades de cada área. E o solo deixa isso muito claro. Uma análise química pode indicar bons níveis de fertilidade e, ainda assim, haver compactação, baixa infiltração de água ou restrições ao desenvolvimento das raízes. Da mesma forma, uma área com boa cobertura vegetal pode apresentar desequilíbrios nutricionais ou baixa atividade biológica. Se olharmos apenas para um indicador, podemos ter uma leitura incompleta do que está acontecendo naquela área.
Essa capacidade analítica é ainda mais importante diante da irregularidade climática. Em períodos prolongados sem chuva, por exemplo, a diferença entre dois solos pode aparecer de maneira muito clara. Estrutura, profundidade das raízes, cobertura e capacidade de armazenar água interferem diretamente na forma como a planta atravessa o estresse.
Não conseguimos controlar o clima, mas podemos atuar sobre algumas das condições que determinam como o sistema produtivo responderá a períodos de seca, calor excessivo ou chuvas intensas. E, principalmente, podemos medir se as decisões tomadas estão tornando aquela lavoura menos vulnerável ao longo do tempo.
É nesse acompanhamento que a agricultura regenerativa ganha consistência. Não basta registrar quais práticas foram adotadas. Precisamos entender o que mudou no solo, na eficiência do uso de recursos, na resposta das plantas e na estabilidade da produção.
A agricultura regenerativa somente amadurecerá quando conseguirmos tratá-la menos como uma classificação da propriedade e mais como uma trajetória que pode ser acompanhada. Porque, no fim, regenerar uma área precisa fazer sentido também para quem assume o risco de produzir nela.







