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Plano Safra 2026/27 reforça peso do planejamento financeiro no acesso ao crédito rural

Postado por Mayara Crivelari | Jornalista Grupo Portal ERP em 15/06/2026 em Mercado

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Expectativa de recursos recordes não elimina entraves para contratação de crédito, avalia Victor Lemos Cardoso, Head Comercial da Agree

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Victor Cardoso, Head Comercial da Agree. Créditos: divulgação.

A expectativa de um Plano Safra 2026/27 com recursos recordes de até R$ 550 bilhões e linhas de financiamento com juros abaixo de 10% ao ano reacendeu o otimismo no agronegócio. Durante agenda na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que o novo ciclo poderá ampliar a oferta de crédito rural em um momento em que produtores ainda enfrentam margens mais apertadas, custos elevados e maior seletividade bancária. 

Apesar do anúncio robusto, especialistas alertam que o volume de recursos, sozinho, não resolve um dos principais desafios do setor: transformar crédito disponível em acesso real no campo. 

Na avaliação de Victor Lemos Cardoso, Head Comercial da Agree, fintech especializada em crédito para o agronegócio, o principal gargalo do crédito rural hoje não está na disponibilidade anunciada pelo governo, mas na capacidade prática de o produtor atender aos critérios exigidos pelas instituições financeiras. 

“O Plano Safra muda as condições oferecidas, mas não necessariamente muda quem consegue acessar essas condições”, afirma. 

O executivo explica que há pelo menos três fatores centrais que seguem limitando o acesso ao crédito, mesmo em cenários de maior oferta de recursos. 

Os gargalos que ainda travam o acesso ao crédito 

O primeiro desafio está na organização financeira da operação. De acordo com Cardoso, muitos produtores ainda encontram dificuldades para apresentar de forma estruturada informações como fluxo de caixa, capacidade de pagamento e tamanho total do endividamento, elementos considerados decisivos na análise de crédito. 

“Muitas operações são saudáveis em teoria, mas não conseguem demonstrar isso de forma clara na documentação”, explica. 

Outro fator relevante é o histórico recente do setor. Após anos marcados por oscilações de preços, clima adverso e compressão das margens, especialmente entre 2023 e 2025, parte dos produtores chegou ao sistema financeiro carregando renegociações acumuladas. 

Mesmo quando a operação apresenta recuperação, esse histórico pode pesar na percepção de risco das instituições financeiras e dificultar a aprovação do crédito. 

Há ainda um terceiro obstáculo: a complexidade técnica das linhas mais atrativas. Recursos com juros subsidiados, como programas ligados ao Pronamp e linhas operadas via BNDES, costumam exigir documentação detalhada, planejamento produtivo e comprovação técnica da capacidade de pagamento. 

Na prática, isso contribui para um cenário de concentração do crédito, em que produtores mais estruturados conseguem acessar melhores condições financeiras, enquanto parte do setor permanece à margem das linhas mais competitivas. 

Endividamento reduz margem para investir 

O cenário também reflete os impactos acumulados das últimas safras. Com margens mais apertadas e maior pressão sobre o caixa, muitos produtores passaram a priorizar a manutenção da operação, reduzindo espaço para investimentos em expansão, modernização e tecnologia. 

Para Cardoso, o endividamento acumulado funciona como um efeito em cadeia: produtores que renegociaram dívidas em safras anteriores chegam ao próximo ciclo já com parte relevante da receita comprometida. 

“Isso tem um efeito direto e um efeito secundário. O efeito direto é a incapacidade de investir. Tudo que seria investimento produtivo vai para serviço da dívida. O produtor mantém a operação, mas não consegue evoluí-la”, resume Cardoso. 

Mas há também um efeito menos visível e potencialmente mais prejudicial no longo prazo, de acordo com o executivo. “A tomada de decisão fica refém do curto prazo”, afirma. Sob pressão financeira, o produtor tende a antecipar vendas em condições menos favoráveis, aceitar linhas de crédito sem comparar custos e adiar decisões estratégicas que poderiam determinar o futuro da operação rural. 

As margens apertadas da soja, especialmente nas safras 2022/23 e 2023/24, aceleraram esse processo. Produtores que operavam alavancados entraram em uma espiral de pressão financeira: resultado fraco, renegociação de dívidas, aumento do custo financeiro e nova deterioração dos resultados. Para o executivo da Agree, sem um plano estruturado de reorganização, parte desses produtores corre o risco de perder capacidade produtiva de forma permanente. 

Planejamento financeiro ganha protagonismo 

Diante de um ambiente mais seletivo, o especialista alerta que o planejamento financeiro tende a ganhar protagonismo na preparação para o Plano Safra 2026/27. 

Produtores que desejam acessar melhores condições de crédito precisarão chegar mais preparados às instituições financeiras, com maior clareza sobre endividamento, fluxo de caixa e estratégia de financiamento. 

Entre os principais cuidados estão a organização documental da propriedade, atualização de registros patrimoniais, histórico produtivo das últimas safras e definição mais clara dos objetivos do financiamento. 

O produtor que chega ao banco sem saber o que quer e por quê aquela linha faz sentido para a sua operação sai sem o crédito ou aceita condições ruins”, comenta. 

Além da busca por crédito, cresce também a procura por reorganização financeira e renegociação de passivos no agro.  Na visão de Cardoso, a demanda aumentou de forma expressiva nos últimos anos e o perfil de quem busca esse tipo de solução também mudou. 

“Há dois ou três anos, quem procurava reorganização financeira era o produtor que já estava em prejuízo, com dívida em cobrança judicial ou ameaça de execução de garantia. Era a última saída. Hoje, vemos cada vez mais produtores que ainda estão em dia, mas perceberam que o ritmo atual é insustentável”, afirma. 

Para o executivo, esse movimento revela uma mudança importante no setor. De um lado, produtores passaram a reconhecer que os anos entre 2020 e 2022 foram excepcionais, marcados por preços elevados, dólar favorável e um ciclo positivo das commodities. “Parte do endividamento atual é resquício de expansões feitas naquele momento de euforia, com premissas que não se sustentaram.” 

De outro, há uma maturidade crescente na gestão financeira das propriedades. Segundo o executivo, produtores que buscam reorganização antes de enfrentar uma crise operam com uma lógica mais empresarial, avaliando fluxo de caixa futuro, projetando cenários e tomando decisões com antecedência para preservar liquidez e capacidade de investimento. 

“O produtor não precisa de promessa de milagre. Precisa de diagnóstico honesto, plano realista e acompanhamento de quem entende tanto de agro quanto de mercado financeiro”, afirma. 

Com o lançamento do Plano Safra 2026/27 no radar, o debate no setor tende a ir além do volume recorde anunciado. Para o especialista da Agree, a diferença entre conseguir ou não financiamento passa menos pelo tamanho da operação e mais pelo nível de organização financeira da propriedade. 

Na avaliação de Cardoso, produtores com maior preparo financeiro tendem a acessar melhores condições e ampliar o poder de negociação junto às instituições financeiras. 

“O que nós observamos na prática é que a fazenda organizada negocia em outra posição. Não é uma questão de tamanho de operação. É uma questão de preparação. E essa preparação começa muito antes do banco, muito antes do Plano Safra ser lançado. Começa no diagnóstico honesto da própria situação”, conclui. 

 

Postado por Mayara Crivelari | Jornalista Grupo Portal ERP em 15/06/2026 em Mercado