O agro já tem tecnologia. O desafio agora é formar pessoas para usá-la
Postado por Mayara Crivelari | Jornalista Grupo Portal ERP em 18/06/2026 em DestaqueDebate no Agro Summit 2026 aponta que o principal dasafio do setor já não é adotar tecnologia, mas preparar pessoas para utilizá-la de forma estratégica

Laila Muniz, Roberto Fava Scare, Ricardo Sassi, Alberto Yoshida e Francisco Martinez, durante o Agro Summit 2026. Créditos: Grupo Portal ERP
Por décadas, a evolução do agronegócio brasileiro foi marcada por grandes saltos de produtividade. Da mecanização à expansão das fronteiras agrícolas, passando pelos avanços em genética, insumos e manejo, a tecnologia desempenhou papel central na transformação do setor. Agora, em uma nova fase marcada pela digitalização, inteligência artificial e automação, surge um desafio diferente: preparar pessoas para acompanhar a velocidade dessas mudanças.
A discussão esteve no centro da mesa-redonda "O maior desafio do agro hoje: mão de obra. Capacitação, tecnologia e produtividade", realizada durante o Agro Summit 2026, no último mês, em Campinas (SP). Mediado por Laila Muniz, gerente de Conteúdo e Produtos Digitais do Canal Rural, o debate reuniu Roberto Fava Scare, sócio-fundador e diretor-geral da Harven Agribusiness School; Ricardo Sassi, produtor rural; Alberto Yoshida, líder de Relações Institucionais e Novos Negócios da Adubos Real e Diretor da Andav; e Francisco Martinez, diretor-executivo do Broto, ecossistema digital do Banco do Brasil.
Embora representem diferentes segmentos da cadeia, os participantes convergiram em um diagnóstico comum: a tecnologia está cada vez mais presente no campo, mas o principal gargalo para ampliar a produtividade e a competitividade do setor continua sendo a qualificação das pessoas.
A avaliação encontra respaldo nos estudos sobre a evolução do agronegócio brasileiro. No documento Trajetória do Agro, produzido pela Embrapa no âmbito do projeto Visão de Futuro do Agro Brasileiro, a Instituição identifica que o setor vive atualmente uma fase marcada pela intensificação produtiva e tecnológica, impulsionada pela incorporação contínua de inovação e pela crescente integração às cadeias globais de valor.
Ao mesmo tempo, a digitalização já faz parte da realidade da maioria dos produtores. A pesquisa "Agricultura Digital no Brasil: tendências e oportunidades", realizada em 2020 pela Embrapa em parceria com o Sebrae e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostra que 84% dos agricultores brasileiros utilizam pelo menos uma tecnologia digital em suas atividades produtivas, seja para acesso à informação, planejamento, comunicação ou gestão das operações.
Os números e as percepções dos especialistas sugerem que o desafio do setor deixou de ser o acesso à tecnologia. A questão agora é como transformar ferramentas digitais em melhores decisões e resultados efetivos dentro das propriedades e empresas do agronegócio.
O desafio deixou de ser implementar tecnologia
Para Alberto Yoshida, a transformação digital já é uma realidade consolidada em grande parte das organizações do setor. O desafio atual está em garantir que as pessoas consigam utilizar essas ferramentas de forma eficiente.
"A inteligência artificial ajuda muito, mas quem efetivamente transforma isso são pessoas.", enfatiza.
Roberto Fava Scare concorda, mas acrescenta uma camada ao diagnóstico, o erro começa quando se trata a tecnologia como fim, e não como meio. "Nenhum produtor acorda pensando em comprar um aplicativo, um software ou alguma tecnologia. O produtor acorda pensando em plantar, colher e produzir." Em sua avaliação, enquanto as soluções forem desenvolvidas a partir da lógica de quem as cria — e não de quem as usa —, a adoção continuará sendo um processo lento e frustrante.
Representando uma empresa com quase 50 anos de atuação, aproximadamente 1.200 colaboradores e operações em seis estados brasileiros, Yoshida destacou que as organizações convivem atualmente com diferentes gerações e perfis profissionais, cada um com níveis distintos de familiaridade tecnológica. Nesse cenário, a transformação digital depende menos da ferramenta e mais da capacidade de preparar pessoas para utilizá-la.
"Eu volto a falar que o nosso grande desafio é preparar pessoas para que façam uso da tecnologia", reforça. Na prática, o desafio envolve mudança cultural, treinamento e adaptação de processos. Yoshida citou a implementação de soluções digitais dentro da própria companhia e afirmou que, mesmo quando os benefícios são claros, a curva de aprendizado ainda exige tempo. "A velocidade que ela veio foi tão rápida que às vezes a nossa expectativa é muito alta. Então nós temos que respeitar essa linha do tempo."
O apagão de mão de obra já é uma realidade
A percepção levantada pelos participantes é reforçada por estudos prospectivos do setor. O levantamento da Embrapa, "Escassez e elevação do custo da mão de obra e da capacitação profissional", aponta que a escassez de mão de obra qualificada se tornou um dos principais desafios para a sustentabilidade da agropecuária brasileira. Entre os fatores apontados estão o envelhecimento da população rural, o êxodo para os centros urbanos e a dificuldade de atrair profissionais para um ambiente produtivo cada vez mais tecnológico.
No estudo, a Instituição avalia que o avanço da digitalização deverá impactar profundamente os sistemas de formação e qualificação da mão de obra do setor, exigindo novos perfis profissionais e competências cada vez mais relacionadas ao uso de tecnologia.
O cenário ajuda a explicar por que a qualificação profissional passou a ocupar posição estratégica dentro das propriedades rurais e empresas do agronegócio.
Mais do que operar máquinas ou sistemas, os profissionais do setor precisam interpretar dados, compreender processos digitais e tomar decisões em ambientes cada vez mais conectados.
Conectividade é importante. Confiança é decisiva
Se a qualificação é um desafio, a forma como a tecnologia chega ao campo também precisa evoluir. Na avaliação do produtor rural Ricardo Sassi, a conectividade continua sendo um dos principais obstáculos para a transformação digital em muitas regiões do país. Em sua visão, a dificuldade de acessar informações e utilizar ferramentas digitais de forma contínua acaba afetando a confiança dos produtores nessas soluções.
"É difícil para ele (produtor rural) confiar num produto de tecnologia que muitas vezes não consegue tirar um relatório ou ter uma informação. Ele precisa chegar na sede da propriedade ou até mesmo na cidade mais próxima para conseguir fazer esse trabalho, esse é o primeiro ponto, confiança nos processos."
A percepção encontra respaldo em indicadores recentes sobre infraestrutura digital no campo. Segundo o Indicador de Conectividade Rural 2025, elaborado pela ConectarAGRO em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), apenas 33,9% da área disponível para uso agrícola no Brasil possui cobertura 4G ou 5G. O levantamento mostra ainda que somente 48,1% dos imóveis rurais brasileiros contam com cobertura 4G ou 5G em toda a área destinada à produção agropecuária.
Para Sassi, porém, as barreiras à adoção tecnológica não se limitam à infraestrutura. De acordo com ele, muitos agricultores ainda enfrentam dificuldades para incorporar ferramentas digitais que substituem práticas construídas a partir da experiência acumulada ao longo de décadas. Durante o debate, o produtor recorreu à própria história familiar para ilustrar essa transformação.
"Eu me lembro do meu avô quando tinha plantação de café. Ele saía da casa e ia lá no canto esquerdo da propriedade para ver se a nuvem estava chegando, para ver se ia chover, se ia adubar ou não."
Francisco Martinez lembrou uma experiência vivida nos primeiros anos do Broto que aponta na mesma direção. Durante uma operação de financiamento de um trator, a equipe descobriu que o produtor interessado na compra não possuía endereço de e-mail. "Ele estava comprando uma máquina de R$ 3 milhões e não tinha e-mail." Para Martinez, o episódio evidenciou a necessidade de adaptar a tecnologia ao perfil de quem toma as decisões dentro da propriedade.
"Eu devia ter feito a solução para conversar com quem ainda está decidindo na propriedade brasileira.", afirma.
Hoje, o executivo vai além. Em muitos casos, isso significa pensar em interfaces por voz, e não apenas por texto.
A confiança, para Sassi, se constrói no cotidiano. Hoje, aplicativos, plataformas e sistemas de monitoramento conseguem oferecer previsões climáticas e recomendações em tempo real. Ainda assim, a credibilidade dessas ferramentas precisa ser conquistada dia a dia dentro da propriedade. "É difícil você convencer uma pessoa de olhar no celular e falar: 'Tá vendo aqui? Tá amarelo. Agora aqui tá vermelho. É chuva que está vindo'."
A linguagem que separa quem cria de quem usa
O excesso de informações é outro obstáculo levantado por Sassi. Durante a discussão, ele relatou o caso de um grande produtor que decidiu reduzir a quantidade de ferramentas utilizadas na propriedade porque já não conseguia administrar o volume de dados gerado por diferentes plataformas. "Era tanta informação que ele não conseguia administrar todas elas." O relato reforça uma preocupação recorrente dentro da cadeia, mais tecnologia nem sempre significa mais eficiência. Em muitos casos, o ganho está na capacidade de integrar informações e transformá-las em decisões práticas.
O mesmo princípio se aplica aos serviços financeiros. Sassi lembrou o caso de um produtor que, numa apresentação de seguro agrícola, recusou-se a "pagar o prêmio" — porque para ele, prêmio é algo que se ganha, não que se paga. Um detalhe de linguagem que, na prática, fechou a venda antes mesmo de ela começar.
Nesse contexto, Sassi defende que a inovação precisa ser acompanhada por um esforço de simplificação.
"A linguagem que é usada nas tecnologias não é a linguagem do produtor.", comenta.
Na visão do produtor, muitos relatórios, dashboards e análises ainda são desenvolvidos sob a lógica de quem cria a tecnologia, e não de quem a utiliza no dia a dia da propriedade. Fava reforça o argumento pelo ângulo da educação, mais do que transmitir conteúdo técnico, a formação profissional precisa desenvolver capacidade analítica e pensamento crítico.
"Você precisa aprender a pensar. Precisa aprender a perguntar e avaliar se a resposta que foi te dada é correta." Para ele, esse é o verdadeiro papel da tecnologia no ensino, não substituir o raciocínio, mas potenciá-lo.
Democratizar o acesso à inovação
O desafio também passa pela inclusão dos pequenos e médios produtores no processo de transformação digital. Francisco Martinez destacou que grande parte das tecnologias mais avançadas ainda está concentrada em operações de grande porte, enquanto produtores menores continuam com acesso limitado a ferramentas, informação e capacitação.
"Muitas das principais tecnologias que fazem o Brasil ter alta produtividade ainda estão muito concentradas nos grandes e mega produtores. 70% das propriedades rurais brasileiras são de pequenos produtores, a tecnologia é diferente dos mega produtores que tem funcionário tem acesso à melhores serviços. Muitas vezes sequer conseguem ter conhecimento das novas tecnologias", afirma o diretor-executivo do Broto.
Martinez defende que o papel das plataformas digitais vai além da oferta de produtos e serviços, é preciso ajudar o produtor a identificar quais soluções realmente geram valor para sua operação. "Hoje em dia tem muita oferta de solução. O produtor rural alega que está perdido". Nesse contexto, educação, curadoria e geração de conteúdo especializado tornam-se tão importantes quanto a própria tecnologia.
Uma das estratégias práticas que o Broto passou a adotar, de acordo com Francisco, foi levar a conversa sobre tecnologia não apenas ao decisor, mas ao filho ou neto dele — quem muitas vezes consegue mostrar, na prática, o impacto que a ferramenta pode ter nos resultados da propriedade.
Yoshida aponta um nó estrutural que atravessa esse processo, a questão da sucessão familiar. Em muitas propriedades e empresas do agronegócio, a governança ainda não está bem definida entre gerações, o que compromete qualquer iniciativa de transformação digital. "Nós temos todas as gerações possíveis do nosso negócio, temos funcionários de 65 anos de idade e os que acabaram de formar na faculdade". Garantir que as lideranças certas estejam no lugar certo, com o preparo adequado, é uma condição prévia à adoção de qualquer ferramenta.
O próximo salto do agro será de gestão
Durante muitos anos, o agronegócio brasileiro foi reconhecido pela capacidade de aumentar produtividade dentro da porteira. Agora, na visão dos participantes da mesa, a próxima vantagem competitiva deverá surgir da gestão.
Durante muitos anos, o agronegócio brasileiro foi reconhecido pela capacidade de aumentar produtividade dentro da porteira. Agora, na visão dos especialistas, a próxima vantagem competitiva deverá surgir da gestão. A combinação entre tecnologia, qualificação profissional e tomada de decisão baseada em dados tende a determinar quais empresas e propriedades estarão mais preparadas para enfrentar um ambiente de negócios cada vez mais complexo.
Os dados internos já dão sinais desse movimento. Yoshida compartilhou um exemplo concreto da Adubos Real, após um ano da implantação de um sistema de gestão para planejamento de vendas, a companhia comparou a assertividade entre homem e máquina. “Nós concluímos que a assertividade do planejamento do vendedor foi por volta de 6%, enquanto a sistema entregava uma assertividade de 25%. É claro que a combinação de homem e máquina vai ser necessária", pondera
O exemplo ilustra um ponto mais amplo, a vantagem competitiva, daqui para frente, estará menos em ter acesso à tecnologia e mais em saber usá-la bem.
Ao encerrar o debate, Fava resumiu o momento vivido pelo setor em uma frase que encontrou eco entre os demais participantes.
"Já tivemos o ciclo da produtividade. Agora é gestão."
Mais do que uma discussão sobre inteligência artificial, automação ou digitalização, a mesa redonda do Agro Summit 2026 deixou uma mensagem clara aos participantes, o futuro do agro continuará sendo construído por pessoas. A diferença é que, daqui para frente, elas precisarão estar cada vez mais preparadas para trabalhar ao lado da tecnologia.







