Café brasileiro terá de provar origem para manter competitividade na Europa
Postado por Redação em 01/06/2026 em MercadoRegulação europeia amplia exigências de rastreabilidade e due diligence, enquanto especialistas apontam tecnologia e governança como fatores-chave para preservar mercado e agregar valor

Eliana Camejo, especialista em ESG, conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli. Créditos: divulgação
O café brasileiro já tem mercado, qualidade reconhecida e presença consolidada na Europa. Mas a próxima disputa não será apenas por preço, volume ou qualidade do grão. Será por confiança. Em um ambiente europeu cada vez mais orientado por rastreabilidade, due diligence e controle de cadeias produtivas, produtores, cooperativas, armazéns, exportadores, torrefadores e indústrias precisarão provar, com dados e documentos, a origem e a conformidade socioambiental do café. O alerta é da especialista em ESG, conselheira de Administração e vice-presidente da Sustentalli, Eliana Camejo.
Para ela, esse é o ponto que parte da cadeia ainda pode estar subestimando. Investir em ESG não significa apenas fazer relatório, aderir a uma pauta reputacional ou responder a uma tendência de mercado. Para o café, ESG passa a significar capacidade de preservar acesso comercial, reduzir risco para compradores europeus, agregar valor ao produto e evitar que uma boa produção seja fragilizada por falta de evidência.
Mesmo empresas e produtores que já exportam para a União Europeia podem precisar elevar o nível de comprovação. A questão não é começar do zero, mas acompanhar uma régua que está ficando mais exigente. O comprador europeu tende a perguntar cada vez mais de onde veio o café, em que área foi produzido, quem participou da cadeia, se há regularidade ambiental, se houve desmatamento após o marco regulatório, como os lotes foram segregados, quais documentos sustentam essas informações e quem governa esses dados, explica Eliana Camejo.
A pressão tem base regulatória. O Regulamento Europeu Antidesmatamento, conhecido como EUDR, inclui o café entre os produtos sujeitos a exigências de rastreabilidade e comprovação de que não estão associados a desmatamento. Segundo a Comissão Europeia, a norma passará a ser aplicada em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios operadores e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenos operadores. Na prática, importadores europeus precisarão demonstrar diligência devida, e essa exigência tende a descer para produtores, cooperativas, armazéns, beneficiadores, transportadoras e exportadores brasileiros.
A discussão sobre rastreabilidade e competitividade também aparece na visão apresentada pela pesquisadora Rita de Cássia Milagres durante o debate “Mercado brasileiro do café: perspectivas, desafios e oportunidades”, promovido pela Rede de Socioeconomia da Embrapa e moderado pelo chefe-geral da Embrapa Café, Rodolfo Osorio de Oliveira. Segundo a pesquisadora, rastreabilidade, controle de qualidade e digitalização da cadeia produtiva tendem a ganhar peso como fatores estratégicos para fortalecer a competitividade do café brasileiro, especialmente diante de mercados mais exigentes.
De acordo com Rita, ferramentas como inteligência artificial, agricultura de precisão, automação e sistemas de rastreabilidade podem contribuir para ampliar transparência, organizar dados produtivos e fortalecer a governança da cadeia cafeeira, um aspecto que tende a ganhar ainda mais relevância diante do aumento das exigências regulatórias e comerciais.
Nesse cenário, a rastreabilidade tende a deixar de ser apenas uma ferramenta de gestão ou diferencial reputacional para se tornar mecanismo de preservação de mercado e, potencialmente, de agregação de valor. Ao discutir os desafios da cafeicultura brasileira, a pesquisadora argumentou que o país precisa transformar vantagens já existentes, como escala produtiva, qualidade e sustentabilidade, em diferenciais competitivos mensuráveis e comunicáveis diante de um mercado internacional cada vez mais orientado por evidências.
A especialista em ESG, Eliana Camejo, afirma que a nova pergunta do mercado europeu não será apenas sobre qualidade, mas sobre prova. “Quem conseguir demonstrar origem, rastreabilidade, regularidade ambiental e governança da cadeia tende a ganhar confiança. Quem tratar ESG como discurso, e não como sistema de controle, pode perder valor justamente em um momento de abertura comercial.”







