Inovação ou negligência? Francisco Cória (Liberali) alerta sobre alto custo de adotar Inteligência Artificial sem governança em webinar Agro Summit
Postado por Isabela Reis, jornalista do Grupo Portal ERP em 14/10/2026 em NotíciasDa transição sistêmica às armadilhas da Inteligência Artificial: os bastidores da transformação digital no agronegócio sob a ótica de Francisco Coria

Francisco Coria, co-CEO da Liberali
O agronegócio vive uma corrida acelerada rumo à inovação e à transformação digital. No entanto, a implementação de tecnologias avançadas como a inteligência artificial (IA) pode se tornar um desperdício de tempo e recursos se a gestão básica da empresa não estiver estruturada. O alerta foi o principal destaque da participação de Francisco Coria, co-CEO da Liberali, durante o webinar promovido pelo AgroSummit, com mediação de Dama Roman, Head de Marketing Digital do Grupo Portal ERP.
Durante o evento, Coria utilizou uma analogia agrícola profunda para explicar os gargalos da tecnologia nas empresas do setor, contextualizando que a inovação sem preparo é um esforço em vão: "Não adianta a gente ter a melhor semente, geneticamente preparada, mais cara e tudo, se minha terra, ou seja, se meu solo, é infértil ou não levou as correções próprias para receber. Porque aí não vou expressar o maior potencial dessa ideia base."
O Perigo do "Lixo Entra, Lixo Sai" (Garbage In, Garbage Out)
Para o executivo da Liberali, o conceito amplamente conhecido no mundo sistêmico como "garbage in, garbage out" ilustra perfeitamente o risco de adotar algoritmos complexos sem organização prévia. Segundo ele, a informação mal gerida funciona como uma semente de baixa qualidade que compromete toda a cadeia:
"Ou seja, lixo entra, lixo sai. E quando a gente fala sobre dados, é como se fosse uma semente ruim, ok? E a analogia, a parte contrária, também é verdadeira. Ou seja, não adianta a gente ter a melhor semente, geneticamente preparada, mais cara e tudo, se minha terra, ou seja, se meu solo, é infértil ou não levou as correções próprias para receber."
Coria detalhou que grande parte das empresas ainda peca por manter sistemas isolados, funcionando como verdadeiras "ilhas" que não se comunicam. Quando o comercial, o administrativo e a produção agrícola não falam a mesma língua, a organização perde a harmonia necessária para tracionar qualquer inovação.
O Peso da Cultura Organizacional: Estratégia vs. Realidade
Um dos pontos mais debatidos no painel foi a interdependência entre pessoas, processos e tecnologia. Citando o renomado pensador da administração Peter Drucker, Coria reforçou que a cultura organizacional dita o ritmo do sucesso tecnológico:
"A estratégia é comida no café da manhã pela cultura. Ou seja, se você não tem uma cultura alinhada com aquela estratégia, não adianta, vamos mudar tudo para inteligência artificial, vou contratar o CEO dos melhores lugares que já fizeram, porque a cultura da empresa não está preparada. Então, logo, é muito provável que essa estratégia de modernização, transformação, tudo isso, não vá para um bom porto, ou não na velocidade desejada."
Para ilustrar os riscos do entusiasmo desmedido com a tecnologia, Coria trouxe um dado contundente baseado em um estudo do MIT divulgado em julho de 2025: 95% das empresas que aplicaram algoritmos avançados ou inteligência artificial generativa não obtiveram retorno financeiro. O motivo central? A ausência de processos internos saneados e de uma governança corporativa sólida.
O Perfil do Erro: Processos Engessados e o "Piloto Automático"
Expandindo a análise sobre os gargalos operacionais, Coria utilizou uma analogia aeronáutica para explicar o funcionamento sistêmico:
"Vamos supor que você seja um piloto de... Tem um avião último modelo que comprou esse avião e ele já tem um piloto automático super moderno, que seria o exemplo da inteligência artificial. Só que ele utiliza como os monitores, os comandos de bordo, tanto velocidade, altura e tudo isso, os dados que vêm do ERP, certo? Então, se o dado que vem do ERP vem tudo falhado, por ‘N’ causas, seja processos ou pessoas, esse piloto automático, de fato, vai tomar decisões ruins que façam com que esse avião vá a óbito, caia, tenha algum problema.
No campo, essa desarmonia se manifesta na diferença de ritmo entre a fazenda e o escritório. Enquanto a atividade agrícola obedece a um ciclo natural e a janelas rígidas de plantio e colheita, os processos administrativos muitas vezes se tornam rígidos ou desconectados da realidade operacional, gerando retrabalho ou dependência excessiva de decisões puramente intuitivas.
Exemplos Práticos: Inovação na Ponta e o Caso do Almoxarifado
Apesar dos desafios estruturais, Coria apresentou exemplos reais de como empresas com maturidade cultural conseguem extrair valor real da tecnologia. Ele destacou uma inovação criada por um cliente da Liberali:
"Um dos clientes nos visitou e me mostrou pessoalmente uma das melhorias que ele, com inteligência artificial, terminou criando uma coisa que se chama Artefato, que é tipo um aplicativo para reorganizar requisições de almoxarifado, que nada mais é que uma tarefa habitual, corriqueira de todo dia, que muitos no agro têm aquele quadro branco que anota as fichas de quantos tem em cada estoque, se saiu ou não saiu. Também tem na prancheta, mas o pessoal terminou fazendo isso em um aplicativo, utilizando essa inteligência artificial, se integrando com o banco de dados desse SAP e, lógico, a informação que ele traz é uma informação confiável, de segurança, porque está inserida em um processo que já foi saneado, já foi fiscalizado."
Esse tipo de solução demonstra que a IA não substitui a governança, mas potencializa processos que já passaram por um rigoroso processo de limpeza e padronização.
O Impacto no Desenvolvimento e o Tempo de Retorno (Time to ROI)
Questionado sobre as vantagens de conectar aplicativos ágeis a arquiteturas robustas de sistemas, Coria apontou que a principal transformação ocorre na velocidade de entrega e na eficiência do tempo de desenvolvimento:
"Basicamente, justamente isso que ele falou, acelerar o processo de desenvolvimento, de entendimento, ok? Você acelera, logo que você acelera, o que que acontece? Diminui tempo. Tempo o que que é? Dinheiro. Dinheiro fez a solução, entre aspas, não é que seja mais econômica, mais eficiente."
Ele ressaltou que a inteligência artificial e as ferramentas de desenvolvimento acelerado, como o agente interno utilizado pela própria Liberali, batizado de Liberalinho para correção de códigos e validação, reduzem o esforço repetitivo dos desenvolvedores e operadores. No entanto, o co-CEO reforça que a palavra final deve sempre pertencer ao ser humano: "Por mais que você já tenha um dado bom, ela tem suas margens de erro, tem suas alucinações [...] Você precisa de uma coisa mais específica."
A Importância do Fator Humano e a Sabedoria de Campo
Um dos momentos marcantes da entrevista abordou a resistência à mudança por parte dos operadores e trabalhadores mais antigos do campo, que muitas vezes utilizam métodos tradicionais (como cadernetas e quadros brancos). Para Coria, a tecnologia deve somar forças com o conhecimento empírico:
"No agro, você tem muitas pessoas que não têm um ensino muito avançado e tudo isso. Gente, isso é um conceito que cai por terra, ok? É porque essas pessoas conseguem ver, sentir o cheiro da terra quando vai molhar, tem outras habilidades que talvez hoje as pessoas, por falar de escritório, não conseguem explorar. Mas é justamente aí que entra uma boa cultura e um bom reconhecimento do líder, para poder aproveitar... A inteligência artificial hoje está mais dependendo de pessoas... de cabelos brancos, ou seja, que têm mais experiência, que sabem mais regras de negócio, porque elas precisam aprender."
Visão de Futuro: Preparando o Solo para a Safra 2027
Encerrando o painel e respondendo aos questionamentos da audiência, Francisco Coria deixou uma diretriz clara para os empresários do agronegócio que buscam dar o próximo passo tecnológico:
"No agro não se pula a etapa. Você plantou, você tem que esperar um tempo, aplicar adubo, chuva, tudo um processo natural. E organizar é uma base de um investimento que faz parte de uma etapa. Ou seja, você quer colher bons dados? Começa a organizar hoje, ok? Porque isso vai te permitir colher inteligência lá na frente, previsibilidade sólida de dados lá na frente. Então, trazendo para este ciclo Safra 27, ah, quero começar agora. Bom, comece primeiro a organizar, preparar o solo, para eu buscar essa informação, plantar hoje, para que na Safra 2027 você tenha uma estrutura de dados muito mais sólida com essa inteligência hoje"







