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IA e o "Great Flattening": como o achatamento de cargos por tecnologia também pode desafiar a gestão no agronegócio

Postado por Redação Agro Summit em 15/09/2026 em Notícias

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Projeções indicam forte redução da média gerência corporativa até o fim de 2026; especialista alerta para os riscos de automatizar decisões em diversos setores

A expansão da inteligência artificial no agronegócio não está apenas otimizando o manejo no campo ou a logística de transbordo; ela começou a alterar a própria estrutura organizacional das empresas do setor. Segundo projeções globais da consultoria Gartner, até o fim de 2026, uma em cada cinco organizações, de diversos setores econômicos utilizará IA para achatar sua estrutura corporativa, eliminando mais da metade dos cargos de média gerência, fenômeno que vem sendo chamado no mercado global de Great Flattening (o "grande achatamento").

No agronegócio, onde grandes cooperativas, agroindústrias e corporações agrícolas operam cadeias complexas com múltiplos níveis decisórios, a automação promete ganhos rápidos de eficiência. No entanto, especialistas alertam que a busca por cortar custos operacionais em escritórios e centrais de controle pode trazer vulnerabilidades estratégicas dentro da gestão de empresas.

Para Virgilio Marques dos Santos, PhD pela Unicamp e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, a média gerência desempenha um papel crítico que algoritmos ainda não conseguem replicar: o atrito produtivo entre o planejamento estratégico. Essa lógica se aplica tanto a outros setores, quanto no agronegócio.

"Boa parte do valor da média gerência estava justamente no atrito. Era o gerente quem traduzia a estratégia para a realidade da operação e devolvia para cima a frase que muitas vezes é a mais valiosa da gestão: 'isso não funciona assim aqui'. Quando essa camada desaparece, a empresa elimina uma etapa de verificação entre a decisão e a operação", afirma Santos.

 

Aumento da amplitude de controle no agro

A reestruturação impulsionada pela IA já mostra impactos diretos nos números do mercado corporativo. Dados da Live Data Technologies apontam que a participação dos gerentes médios em demissões de lideranças saltou de 20% em 2018 para cerca de um terço nos últimos anos.

Simultaneamente, o uso de soluções de IA agêntica capazes de monitorar dashboards, gerar relatórios de safra e emitir alertas operacionais de forma autônoma expandiu a capacidade de supervisão dos diretores. Pesquisas do MIT Sloan indicam que a amplitude de controle nesses cenários pode passar do padrão histórico de 7 subordinados para até 15 por gestor.

No entanto, no agronegócio, depender de sistemas automatizados sem o devido contraponto humano pode acelerar erros em cascata. Um modelo de IA pode otimizar a rota de colheita ou o agendamento de frete no papel, mas falhar em interpretar janelas climáticas atípicas, quebras pontuais de maquinário ou especificidades regionais dos cooperados.

"Um sistema que executa muito bem aquilo que foi programado, mas não tem quem perceba que as condições mudaram, pode continuar funcionando por algum tempo sem que ninguém perceba o problema. Se a empresa elimina os mecanismos de realimentação, fica mais eficiente para fazer aquilo que decidiu e potencialmente pior para perceber que decidiu errado"

 

O risco da perda de liderança técnica no longo prazo

O impacto do achatamento hierárquico também afeta a formação de novas lideranças para o agronegócio. Pesquisa da Korn Ferry indica que 43% dos profissionais em empresas que reduziram gerências relatam liderança desalinhada, enquanto 37% dizem se sentir sem direção clara.

Para o setor agropecuário, que já enfrenta desafios estruturais na atração e retenção de talentos qualificados para a gestão técnica e digital, a eliminação de cargos intermediários pode interromper a formação de futuros executivos.

"O problema de eliminar a média gerência não aparece necessariamente no balanço do trimestre em que a decisão é tomada. Existe um custo de longo prazo quando a empresa deixa de formar pessoas que aprendem a tomar decisões, lidar com exceções, coordenar equipes e responder por resultados"

 

O novo papel do gestor digital no campo

Em vez de encarar a IA apenas como uma ferramenta para enxugar organogramas, o setor precisa redefinir o papel dos seus gestores. Tarefas focadas unicamente em consolidar dados de planilhas, repassar ordens e emitir relatórios operacionais estão entre as mais suscetíveis à automação.

A tendência é que o gestor do agronegócio migre para uma postura estratégica de validação e interpretação contextual.

"A parte do trabalho que consiste em levar informação para cima e instrução para baixo é justamente uma das que a IA tende a fazer melhor. O gerente que permanecer nessa estrutura precisará assumir funções que dependem de contexto: identificar exceções, interpretar aquilo que não aparece no dashboard, desenvolver pessoas e ter condições de dizer à direção que uma decisão não está funcionando" conclui Santos.

Postado por Redação Agro Summit em 15/09/2026 em Notícias