Gargalo fora da porteira: como a integração de dados e a tecnologia reorganizam a logística do agronegócio
Postado por Redação Agro Summit em 20/10/2026 em NotíciasAvanço da digitalização no supply chain conecta produtores, cooperativas e transportadoras para reduzir ineficiências operacionais e aumentar a previsibilidade no campo

O avanço contínuo da produtividade agrícola no Brasil impõe um desafio complexo à gestão do setor: garantir que volumes crescentes de grãos e insumos se movimentem com eficiência entre fazendas, unidades de armazenagem, agroindústrias, terminais e portos. Com a estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) de uma produção de 361,7 milhões de toneladas de grãos para a safra 2025/26 crescimento de 2,6% em relação ao ciclo anterior, a inteligência de processos na cadeia de suprimentos torna-se um fator determinante para a preservação de margens financeiras.
Em um cenário marcado por longas distâncias, sazonalidade e gargalos estruturais — onde deficiências no pavimento rodoviário chegam a elevar em média 31,2% os custos operacionais do transporte, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, a tomada de decisão no agronegócio passa a depender da eficiência operacional e do uso estratégico de dados.
A transição da eficiência isolada para a gestão de ecossistema
Historicamente, o investimento em eficiência no agronegócio esteve concentrado "dentro da porteira". No entanto, a complexidade das operações logísticas atuais tem exigido dos gestores de propriedades, cooperativas e tradings uma visão integrada de todo o ecossistema de transporte.
Para Thiago Cardoso, executivo responsável pelo segmento de Agronegócio na nstech, o gargalo atual reside na falta de sincronia entre os elos da cadeia.
"O agronegócio brasileiro avançou muito em produtividade dentro da porteira, mas ainda existe um potencial importante de eficiência na conexão entre os diferentes elos da cadeia. Não basta uma transportadora ter tecnologia ou uma indústria ter visibilidade da sua operação. O ganho acontece quando essas informações se conectam e permitem decisões coordenadas, desde a origem até o destino", afirma Cardoso.
O executivo destaca que a análise isolada de eficiência não atende mais às demandas de gestão de grande escala.
"A eficiência logística não pode mais ser analisada de forma isolada. Quando cada participante otimiza apenas a sua própria operação, nem sempre o resultado é o melhor para a cadeia como um todo. O desafio está em conectar essas decisões e criar uma operação mais sincronizada, com ganhos compartilhados entre embarcadores, transportadores e destinos", explica Cardoso.
Previsibilidade operacional e coordenação multimodal
A gestão de frotas e de recebimento nos períodos de pico de safra exige alto nível de planejamento para evitar filas, custos extras com estadia de caminhões e gargalos em pontos de transbordo. A expansão dos corredores logísticos do Arco Norte exemplifica essa necessidade de coordenação: segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), a movimentação portuária de soja e milho na região atingiu 106,5 milhões de toneladas em 2025, uma alta de 12,5% em relação ao ano anterior.
Nesse contexto, ferramentas como sistemas de agendamento, gestão de pátios e torres de controle operacionais ganham espaço como instrumentos de gestão estratégica, permitindo antecipar gargalos antes que gerem prejuízos financeiros à operação.
"Em operações de grande escala, pequenos ganhos de eficiência podem representar impactos importantes no resultado. A tecnologia permite antecipar situações que antes eram identificadas apenas quando já haviam comprometido a operação, tornando o planejamento mais preciso e a utilização dos recursos mais eficiente", destaca o executivo.
Rastreabilidade, mitigação de riscos e efeito de rede
Além da fluidez do transporte de grãos, a gestão de risco e conformidade no transporte de cargas de alto valor ou sensíveis como defensivos agrícolas e fertilizantes demanda visibilidade em tempo real. A digitalização das jornadas de transporte permite estruturar políticas preventivas de segurança, mitigando perdas patrimoniais e atrasos operacionais.
"A segurança precisa fazer parte do planejamento logístico e não ser tratada apenas como uma resposta a ocorrências. Quando conectamos informações sobre transporte, comportamento operacional e riscos, ampliamos a capacidade de prevenção e criamos condições para operações mais seguras e eficientes", afirma Cardoso.
A tendência sinalizada para os próximos anos é a consolidação do conceito de "efeito de rede" na logística do agro. À medida que mais produtores, cooperativas, embarcadores e transportadoras compartilham dados operacionais sob uma arquitetura conectada, a capacidade preditiva da cadeia aumenta, transformando dados operacionais dispersos em inteligência de gestão.
"Quando falamos em transformação digital da logística, não estamos falando apenas de digitalizar processos individuais. O verdadeiro diferencial está no efeito de rede: quanto mais embarcadores, transportadoras e operadores conectados, maiores são as oportunidades de gerar inteligência, colaboração e eficiência para todos. É essa capacidade de conectar o ecossistema que pode transformar a competitividade logística do agronegócio brasileiro", conclui Thiago Cardoso.







