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A revolução da rastreabilidade: PNIB, IoT e o futuro da pecuária brasileira

Postado por Werter Padilha - CEO da Taggen Industries & Services e da Sawluz Tecnologia e Serviços em 25/09/2026 em Notícias Artigos

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Werter Padilha é CEO da Taggen Industries & Services e da Sawluz Tecnologia e Serviços, além de conselheiro da Associação Brasileira das Empresas de Software.

 

A pecuária brasileira vive um momento que representa um divisor de águas. De um lado, o Brasil alcançou no primeiro semestre de 2026 o maior volume de exportações de carne bovina de sua história: 1,705 milhão de toneladas, crescimento de 15,5% em relação ao primeiro semestre de 2025, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). De outro, aumentam as exigências internacionais por evidências sanitárias, ambientais e de origem da proteína bovina brasileira.

O episódio mais recente evidencia a dimensão desse desafio. Em 3 de setembro de 2026, entraram em vigor restrições da União Europeia ao ingresso de produtos brasileiros de proteína animal, decorrentes das regras europeias para o uso de antimicrobianos. O Ministério da Agricultura e Pecuária e o Ministério das Relações Exteriores confirmaram oficialmente o início das restrições, enquanto a ABIEC registrou a interrupção das exportações brasileiras de carne bovina para o bloco. O episódio demonstra que declarações de conformidade até então prestadas já não são suficientes: cada vez mais, será necessário apresentar evidências verificáveis e auditáveis.

Outra transformação de enorme impacto será a aplicação do Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), inicialmente aprovado em 2023 e cuja entrada foi postergada mais de uma vez. Segundo o cronograma divulgado pela Comissão Europeia, a regra passa a ser aplicada a operadores médios e grandes em 30 de dezembro de 2026 e à maioria dos micros e pequenos operadores em 30 de junho de 2027. Os bovinos integram as commodities abrangidas. Para a pecuária brasileira, urge a necessidade de demonstrar a origem dos animais, a geolocalização das propriedades envolvidas e a conformidade socioambiental e sanitária ao longo da cadeia.

Nesse cenário, o avanço do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB) torna-se fundamental. Mas existe uma distinção que precisamos compreender: identificar um animal não significa monitorá-lo. A identificação estabelece sua identidade. O monitoramento automatizado permite acompanhar sua movimentação e produzir registros que contribuem para a construção de um histórico de evidências. É essa combinação que transforma dados em informações úteis para a defesa sanitária, a gestão da propriedade e a comprovação de origem.

Na pecuária, em que os ciclos produtivos podem durar anos e envolver diferentes fases cria, recria e engorda em propriedades distintas, a rastreabilidade de ponta a ponta permite construir evidências sobre a trajetória do animal, seu histórico sanitário e as propriedades pelas quais passou, fortalecendo a comprovação de conformidade exigida pelos mercados compradores. Trata-se de uma infraestrutura que deveria estar mais avançada no Brasil, porque sua ausência não representa apenas um problema tecnológico: representa risco sanitário, comercial e socioeconômico para toda a cadeia produtiva.

A identificação individual associada ao monitoramento da movimentação dos animais também fortalece a defesa sanitária. Diante de eventual foco de enfermidade, reconstruir a trajetória de um bovino e identificar por quais locais na própria fazenda ou propriedades passou permite direcionar investigações e medidas de contenção com maior precisão.

Para o pecuarista, essa transição exige investimentos, integração com sistemas de gestão e capacitação da mão de obra. Mas esse custo precisa ser confrontado com riscos potencialmente maiores, como a perda de mercados compradores. Cbe contabilizar ainda os possíveis ganhos de produtividade e valorização da produção proporcionados pela rastreabilidade.

O Brasil já desenvolve tecnologias capazes de contribuir para essa transformação. A parceria entre a Taggen e a Embrapa Pecuária Sudeste desenvolve soluções já operacionais baseadas em Internet das Coisas (IoT), Bluetooth Low Energy (BLE) e computação em nuvem, com identificação individual, monitoramento da movimentação e geolocalização dos animais. A tecnologia também avança na automação da coleta e integração de dados e na construção de históricos digitais auditáveis, criando uma infraestrutura capaz de apoiar verificações de origem e conformidade socioambiental.

E os ganhos não se restringem ao atendimento das exigências internacionais. A mesma infraestrutura abre oportunidades porteira adentro, com aplicações em desenvolvimento para aprimorar a gestão do rebanho, a localização dos animais, a otimização de processos produtivos e, progressivamente, o bem-estar animal e a pecuária de precisão. A tecnologia deixa, assim, de ser apenas um instrumento de conformidade e passa a representar uma oportunidade de geração de valor. Isso atende a uma demanda crescente do próprio consumidor brasileiro, que também exige transparência, bem-estar animal e procedência comprovada da proteína animal que chega à mesa.

O futuro da pecuária brasileira dependerá cada vez mais da nossa capacidade de transformar inovação tecnológica em evidências confiáveis. Identificar é necessário, mas identificar já não basta.  Precisamos monitorar, registrar, integrar e comprovar. É assim que podemos proteger mercados, aprimorar nossa defesa sanitária, aumentar a eficiência das propriedades e demonstrar, com dados e responsabilidade, a qualidade e a sustentabilidade da produção pecuária brasileira.

 

Postado por Werter Padilha - CEO da Taggen Industries & Services e da Sawluz Tecnologia e Serviços em 25/09/2026 em Notícias Artigos