Clima pressiona produção de alimentos e acelera adoção de tecnologias no agro
Postado por Redação em 09/02/2026 em NotíciasInstabilidade do tempo expõe fragilidades do modelo produtivo atual e acelera mudanças na cadeia de alimentos
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A intensificação de eventos climáticos extremos, combinada à alta no custo de insumos e à pressão por cadeias produtivas mais sustentáveis, está forçando uma mudança estrutural na forma como o agro e a indústria de alimentos operam. Em vez de iniciativas pontuais de sustentabilidade, empresas passaram a buscar tecnologias capazes de reduzir risco climático, estabilizar produtividade e preservar margens em um ambiente cada vez mais volátil.
A produção agrícola brasileira já sente os efeitos dessa pressão. Eventos climáticos adversos causaram prejuízos estimados em R$ 287 bilhões à agropecuária entre 2013 e 2022, com perdas em mais de 6,8 milhões de hectares de lavouras, segundo dados consolidados por organizações setoriais e governamentais. Uma pesquisa recente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) também indica que até 86% das lavouras brasileiras estão expostas a perdas financeiras por eventos climáticos, refletindo o aumento da variabilidade do tempo sobre culturas essenciais.
Nesse contexto, agtechs e foodtechs deixaram de ocupar um papel secundário e passaram a integrar o centro das decisões estratégicas do setor. Soluções voltadas à regeneração do solo, ao uso de insumos biológicos, à eficiência hídrica e à biotecnologia aplicada à produção de alimentos vêm sendo adotadas como resposta direta a perdas recorrentes de produtividade e à imprevisibilidade das safras.
Para Humberto Matsuda, membro do Comitê de Investimentos da Kamay Ventures, a crise climática mudou o racional econômico do setor. “O clima deixou de ser uma variável externa e passou a entrar no cálculo de custo. Quando a produtividade oscila de uma safra para outra, o risco deixa de ser aceitável”, afirma.
Segundo ele, tecnologias que combinam ciência e soluções baseadas na natureza têm ganhado tração justamente por atuarem sobre os principais gargalos do agro. “Recuperar a saúde do solo melhora retenção de água, reduz dependência de fertilizantes e diminui a exposição do produtor à volatilidade de preços. Isso é eficiência operacional, não discurso ambiental”, completa Matsuda.
Clima entra no cálculo de risco da indústria de alimentos
Apesar de um cenário global de contração de capital em alguns segmentos de agrifood tech, com investimentos totais em foodtech e agtech caindo quase 50% em 2022 em comparação com 2021, categorias relacionadas à tecnologia climática, como agricultura de precisão, biotecnologia e sistemas que reduzem insumos e desperdícios, têm atraído atenção adicional de investidores. No Brasil, relatórios setoriais apontam que R$ 627,2 milhões foram investidos em agtechs e foodtechs no primeiro semestre de 2025, com crescimento expressivo em estruturas de apoio como incubadoras e aceleradoras do setor.
A indústria de alimentos enfrenta pressão semelhante. Além dos impactos indiretos do clima sobre a oferta de matérias-primas, há uma demanda crescente por processos produtivos mais eficientes e por produtos com menor impacto ambiental. A biotecnologia surge como uma das principais apostas para reduzir desperdícios, encurtar cadeias de suprimento e desenvolver ingredientes mais previsíveis em termos de custo e qualidade.
“O Brasil, pela dimensão de sua produção agrícola e pela diversidade de biomas, tornou-se um mercado estratégico para o desenvolvimento e a validação dessas tecnologias. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios estruturais que tornam a adoção de soluções de eficiência ainda mais urgente, como degradação do solo, eventos climáticos extremos e dependência de insumos importados. O setor está mais pragmático. As empresas não estão testando inovação para sinalizar compromisso ambiental, mas para garantir previsibilidade em um cenário instável”, diz Matsuda.
Para investidores e empresas do setor, a tendência é clara: inovação climática deixou de ser uma agenda reputacional e passou a ser uma variável central de competitividade. A capacidade de produzir alimentos de forma eficiente, resiliente e economicamente viável deve definir quais empresas conseguirão crescer em um cenário marcado por pressão ambiental, regulatória e de custos.








