Apagão de talentos no agro: déficit na formação de profissionais ameaça a gestão digital do setor
Postado por Redação Agro Summit em 23/10/2026 em NotíciasEstudo da CNA e Esalq/USP alerta para o descompasso entre currículos acadêmicos e o mercado; falta de capacitação digital limita a adoção de IA e softwares na gestão agrícola

A rápida modernização do agronegócio brasileiro esbarra em um gargalo que vai além das porteiras e das máquinas: a escassez de mão de obra preparada para operar novas tecnologias, interpretar dados e gerenciar processos cada vez mais complexos. Mais do que uma dificuldade do departamento de Recursos Humanos, a falta de profissionais qualificados tornou-se um risco direto para a eficiência operacional, a produtividade e a saúde financeira das propriedades e empresas agrícolas.
Dados de um estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em parceria com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), revelam que 94,8% dos produtores rurais consultados enfrentam dificuldades para contratar trabalhadores. Para 44,5% deles, a disponibilidade de mão de obra é o principal desafio da atividade superando preocupações com custos, clima e volatilidade de preços.
A escassez de pessoas preparadas afeta diretamente o ritmo das operações e encarece o custo de produção. A adoção de softwares de gestão, sistemas de agricultura de precisão e ferramentas de inteligência artificial perde força quando a ponta operacional e a liderança intermediária não possuem o treinamento necessário para transformar o volume de dados gerados em decisões estratégicas.
A desconexão entre a universidade e a gestão no campo
Parte da explicação para esse apagão de talentos está no descompasso entre o ensino tradicional e o ritmo de inovação exigido pelo mercado. Um levantamento conduzido pelo professor Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, titular da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), com dezenas de profissionais da iniciativa privada, universidades e centros de pesquisa, identificou um distanciamento relevante entre os currículos acadêmicos e as reais necessidades operacionais do agronegócio.
"Fiz um levantamento com dezenas de profissionais da iniciativa privada, universidades e centros de pesquisa para conhecer a opinião deles sobre a escassez de mão de obra qualificada. Um dos pontos identificados foi a desconexão entre o que a universidade ensina e as necessidades reais do mercado." — Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, professor titular da Esalq/USP.
Na prática, a incapacidade de formar profissionais que dominem visão de negócios, análise de dados e gestão de tecnologias aplicadas cria pontos cegos na gestão agrícola. A inovação embarcada em máquinas e sistemas digitais só se converte em retorno sobre o investimento (ROI) quando há pessoas aptas a manusear o conhecimento e resolver problemas do dia a dia.
"A inovação só se converte em produtividade quando há pessoas preparadas para aplicar o conhecimento, resolver problemas e acompanhar as novas demandas do mercado." — Fernando Paoliello Junqueira, presidente da Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto (AEAARP).
Diante desse cenário, a qualificação deixa de ser uma pauta puramente acadêmica e passa a integrar a estratégia de gestão do agro brasileiro. Sem alinhar a formação profissional às exigências de um setor digitalizado, empresas e produtores correm o risco de acumular gargalos operacionais e perder competitividade no mercado global.







